sexta-feira, maio 01, 2009

Príncipe


Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te. São mil e umas
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

quinta-feira, abril 30, 2009

A saudade Aconteceu




Há pouco quando ficaram
Teus olhos presos nos meus
Quantos segredos contaram
Quantas coisas revelaram
Nessa confissão meu Deus
No silêncio desse adeus




Há pouco quando teimosas
Duas lágrimas rolaram
Trementes silenciosas
Deslizaram caprichosas
E nos teus lábios pararam
E nosso beijo selaram




Há pouco quando partiste
Todo o céu enegreceu
Ainda bem que tu não viste
Formou-se uma nuvem triste
Chorou o céu e chorei eu
E a saudade aconteceu

Camané

quarta-feira, abril 29, 2009


Escrevo...
como penas que voam
e estrelas que caem...
Escrevo...
como um sussuro...
um pedido de amparo
ao meu anjo da guarda, a uma alma, a uma testemunha...
com esperança intensa que me consiga ouvir...
Escrevo...
Para estancar o sangue daquela ferida,
tranformar a dor e a desilusão em algo deslumbrante
algo mais suportável, aceitável, dignificante
Para não dizer que as horas cairam em algo vago e não foram perdidas...
Escrevo...
para me enganar, fantasiar, e de leve embriagar a realidade
na esperança vã de edificar algo nos estéreis corações de titânio
que a vida cremou e transformou em pó e em nada...
Escrevo...
com o pesar das respostas que não chegaram
com o pesar das garrafas de ilusão que não deram à costa
para que me possa confessar, ilibar e libertar
como se de largarta amanha me pudesse transformar em borboleta...
Escrevo...
para saborear o enlaçe de veludo nas minhas duvidas
para trautear em recantos tão meus e tão prateados
as palavras que ainda tanto anseio ouvir...
Escrevo...
Para rodopiar e dançar sobre aquela doce musica
sentir a harmonia, o aconchego e a paz
que em silencio os meus ouvidos ainda conseguem sentir
Escrevo...
para que os meus sonhos nunca definham na encruzilhada
e sigam o seu caminho, sobre campos de tiro e dias sem lua...
Para que os meus sonhos se mantenham erguidos
e neles exista uma fada ou uma estrela do norte que os conduza ao destino.

terça-feira, abril 14, 2009

Espero... que me encontres


Espero... que me encontres

Espero... que me encontres
nas constelações de tectos sem lua
entre um sorriso e uma conversa banal
que me encontres... por ai algures

Espero... paciente...que me encontres
Amarrada entre as cores daquela amizade tão tua
Amarrada entre sentimentos crepusculares
que me encontres por ai , dentro de ti, algures...

Espero que me encontres por ai, num sonho ou miragem
Bordada em prata nos teus ecrãs diários
ou tatuada num teclado que te prenda as mãos
para que te possa abraçar e ensurdecer todos esses nãos.

Espero... que me encontres
nas constelações de tectos sem lua
entre um sorriso e uma conversa banal
que me encontres... por ai algures

Espero...que me encontres por ai... perdida algures
Talvez na melodia daquela musica cúmplice
em que te digo que és o meu anjo de cetim
e em que és único para mim!

Espero encontrar-te
Que os teus contornos surjam
ensaiados no fumo da solidão dos olhos tristes
próprios das pessoas que ainda sonham

Espero... que me encontres
nas constelações de tectos sem lua
entre um sorriso e uma conversa banal
que me encontres... por ai algures

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Mahatma Gandhi


Pegue um sorriso

Pegue um sorriso
e doe-o a quem jamais o teve...
Pegue um raio de sol
e faça-o voar lá onde reina a noite...
Pegue uma lágrima
e ponha no rosto de quem jamais chorou...
Pegue a coragem
e ponha-a no ânimo de quem não sabe lutar...
Descubra a vida
e narre-a a quem não sabe entendê-la...
Pegue a esperança
e viva na sua luz...
Pegue a bondade
e doe-a a quem não sabe doar...
Descubra o amor
e faça-o conhecer o mundo...
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Se eu pudesse

Se eu pudesse deixar-te algum presente,
deixaria aceso o sentimento
de amar a vida dos seres humanos.

A consciência de aprender
tudo o que foi ensinado pelo tempo fora...
Lembraria os erros que foram cometidos
para que não mais se repetissem.

A capacidade de escolher novos rumos.
Deixar-te-ia, se pudesse,
o respeito àquilo que é indispensável:
Além do pão, o trabalho.
Além do trabalho, a acção.

E, quando tudo faltasse, um segredo:
O de buscar no interior de ti mesmo
a resposta e a força para encontrar a saída.

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"Quando a última árvore tiver caído,
quando o último rio tiver secado,
quando o último peixe for pescado,
vocês vão entender que dinheiro não se come".

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Já não Almejo Voar



Poiso as minhas asas corroídas pelo sal das tristes lágrimas
Já não almejo voar
Sinto o negro pesar das ilusões feridas
Não tenho o alento,
Nem a elegância dos sonhos de outrora
Deito-me, escondo-me …
Alma feita em metal de muralhas erguidas
De nada me adianta esperar pela aurora
Cubro-me com o meu manto retalhado de escombros,
Fracturas expostas desta vida inócua e perversa
Tento, em vão, morrer adormecendo
Mas doem-me demasiado as penas murchas pela tua ausência
Agora nem o sono me abraça
Quebraste-me, partiste-me
Seduziste-me nesse jogo de amigo viciado sem clemência
Pintaste-me com o verbo ignorar tonalidade baça
Com salpicos e desenhos de borboletas envenenadas
Rabiscos do teu tom azul tão vulgar e impessoal.
Envenenada pelo teu tom azul banal
Já não almejo voar.